JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

joao m fernandes jorge 

João Miguel Fernandes Jorge nasceu no Bombarral em 1943. Licenciado em Filosofia, é autor de uma vasta obra de ficção, poesia e ensaios sobre arte, colaborador de “O Independente” e co-director da revista “As escadas não têm Degraus”. Recebeu os prémios José Régio de poesia da Feira do Livro do Porto (1975) e Nicola de poesia (1985).

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origem: Edições ASA

 Publicações: A flor da Rosa, Lisboa : Relógio d'Água, cop. 2000; Sombras, Lisboa : Relógio d'Água cop. 2001; Nem vencedor nem vencido, Lisboa : Presença, cop. 1988; Museu das Janelas Verdes, Lisboa : Relógio d'Água cop. 2002; O regresso dos remadores, Lisboa : Presença, imp. 1982; Turvos dizeres, Lisboa : Moraes, 1973; Sob sobre a voz Porto Batel, 2a ed.  Lisboa : Presença, 1987; Meridional, Lisboa : Plátano, 1976;  O barco vazio, 1a ed.  Lisboa : Presença, 1994; O roubador de água, Lisboa : Assírio e Alvin, imp. 1981; A pequena Pátria, 1a ed.  Lisboa : Presença 2002; Vinte e nove poemas, Lisboa : A Regra do Jogo 1978; Castelos : I a XXXV, S.l. : Averno, 2004; Tronos e dominações, Lisboa : Assírio e Alvim 1985; Terra nostra, 1a ed.  Lisboa : Presença, 1992; Pelo fim da tarde, Lisboa : Quetzal, 1989; Obra poética, 2a ed.  Lisboa : Presença.

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Jim Warren, River Life - Fine Art Jim Warren, River Life - Fine Art

 

 

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O mar já não era para mim suficiente.
fazia-me falta um rio
um rio sob sombra das árvores.

 

É difícil a meio da música
suportar a luz do café.

 

Estávamos juntos
como vejo estar no palco
sob dois projectores.

 

Os olhos
as mãos
todo o corpo
era só o frio da noite.

 

in «Poemas Escolhidos»,
O Roubador de Água (1981)
Lisboa: Assírio & Alvim, 1982

Capítulo XXVII

Jim Warren, In Motion  Jim Warren, In Motion

 

 

COMO EL-REI DOM PEDRO DE PURTUGAL DISSE POR DONA
  ENES QUE FORA SUA MOLHER RECEBIDA, E DA MANEIRA
                         QUE ELLO TEVE

 

 

Como anunciei a noite. Quantas vezes.
Quantas vezes repousei sob a funda obscuridade
do teu sono apenas percebendo um ou outro pequeno ruído.
Pela noite procuro o teu terreno hoje
esse mínimo espaço deus estas naves estão desertas
tudo é estranho para o que vive. Sob a noite
encerro o segredo destes ritos
desfazendo este meu corpo paisagem
alimentando um brilho antigo
cabelo que conheci. Digo nada há que valha esta hora
pouco a pouco renuncio ao sol
em favor da água dos teus olhos.

 

É preciso esperar tanto. Esta morte faz-se lenta
mente não tenho fome nem sede nem desejo
apenas por outro caminho regresso.
São nossas estas naves
o pequeno galgo que repousa
foi o que nasceu do frio que nós aprendemos.

 

Esta noite perdi-me nos teus dedos
repeti os teus passos caminhando não
tão depressa quanto queria.

 

Vê a paisagem muda. Não descubro sequer
o desespero
e quantas vezes digo não tenho aqui ninguém
apenas esta nave sem dúvida a mais bela
para te mostrar.

 

Aparentemente nada mudou mas na verdade tudo mudou.
Um vento passa sobre mim o risco
das aves sobre o mar
estas pedras colocadas estes arcos cobertos pelos limos
a tua ausência de pedra desenhada
caminhando para mim.

 

Não me recordo mais
varreu-se-me a memória do teu rosto sob a pressa das mãos
e no entanto quantas vezes digo
tu não suportas alteração.

 

É tarde. A lua vai morrer. Deixo-me dormir.

 

in «Poemas Escolhidos», 
Da Crónica do Rei Pedro Alguns Primeiros Capítulos (1973)
Lisboa: Assírio & Alvim, 1982

Ervas Marinhas e Mar Azul

Estela Baptista, Paisagens Temporais

Estela Baptista, Paisagens Temporais
 

 

Nunca hás-de saber.
A inocência é assim. Com um bêbado a
cantar.
O quarto fica às escuras.
Deslizo pelos telhados a luz sobre o planalto
os desertos de latão não têm fim.
eu canto «o sangue de jesus nunca me faltou»
eu canto com o bêbado.

 

Altos pavilhões. O rapaz está deitado.
está deitado no chão sobre as tábuas
e os lábios estão frios.
Remeto-te a minha carta.
Compro-te uma caixa de bolos.
uma chávena de café. Está quase frio. Anda
toma-o depressa.
Os dedos sujos. A cabeça sobre a almofada.

 

Não tinha sonhos.
O agosto invade meia janela o teu sono.
vai-te embora. Os sapatos. É coisa para que
não há dinheiro.
Fica tudo debaixo da cama,
mesmo o rapaz que já lá estava deitado.

 

Minha é a fidelidade cega.
Estou entre migalhas de bolo e formigas
estou com o papel de carta
sinto-me mais à vontade do que ontem.
Olhos de velho cabeça rapada «o senhor deseja
falar comigo?»
chegar repetindo a insuportável canção
o sangue de cristo nunca me faltou.
Levou o indicador aos lábios e de seguida
virou a página do livro.

 

Venho atender o telefone.
Conheceu-me a voz?
Um salto de trapézio faltou-lhe um pé
enquanto andava a passear comigo. Pode
ficar sossegado.

 

São uvas de agosto e já tão doces.
Os reis são os meus reis dão-me um gozo enorme
arrastando os pés e a voz
água hipossalina
alcalina bicarbonatada e carbonatada
sódica
muito levemente sulfúrea e azotada
bacteriologicamente pura
resíduo seco
sem semelhante.
Vesti uma camisa branca. Bebi a água.

 

Tirava o casaco do gancho e ouvia
um cálice de xerez em troca de uma nota
sebenta.
Era um rosto no bar visto por cima de um ombro.
Nunca tive essa sorte uvas tão doces
pelos primeiros dias de agosto.

 

É quinta-feira. sei pela cega do partido
gritando nos corredores do metro.
Finge que vende o jornal nem os camaradas o
compram.
Vi um negro de gravata a tentar engatá-la.
«mas ela não é cega
porque é assim tão maldoso?» estende o braço
sacode a cinza do charuto
compõe as abas do casaco
pega ao colo no cão

 

movem-se em massa pela praia.
Estendem toalhas. A nossa era azulinho.

 

O bêbado cantava. Cantava sempre
o muro branco demais o sol os camiões
a estrada
coisas de regresso.

 

Perseguíamos um coelho para
os lados da serra
cautelas e apostas velhos segredos
«anda, agora pago eu».

 


in «Poemas Escolhidos», 
O Roubador de Água (1981)
Lisboa: Assírio & Alvim, 1982

Reduzir a Dependência das Coisas

Eduardo Naranjo Eduardo Naranjo


 


Tudo consiste em reduzir a dependência das coisas.
Partes amanhã. Não mais nos veremos. Um pouco o
desertor a cada passagem da nossa alma ou
quem espera para morrer. 


A aquisição de todos estes bens
as espécies de tristeza são o que
acompanha quem espera — quais as pretendidas
vantagens? a juventude ou o mar?


Que te importa o que posso ou não fazer? Se
estamos tão perto quando nas ruas cruzamos e dizemos
o herói de toda a circunstância — a tua vida
precede a minha a tua morte ao abrigo das paixões
mas nada disto é dito
animal que repousa sob o erro.


Pela última vez
põe os teus sapatos novos
tão contrários à fonte dos actos e à moral
e vem, mesmo que tenhas andado para lá do som,
lavadinho, para que eu possa passar a minha mão
pelo pêlo
pelo pêlo lugar também do saber e de toda a possessão.

 


in "Direito de Mentir"
Lisboa, Arcádia, 1978.

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