Thomas Moran
Minha Querida,
Chove abertamente!
Estou aqui, na orla do desejo, a olhar para o profundo e para o alcance do véu lúgubre que abraça os ambientes informes, já rendidos ao seu estranho ardor.
No horizonte há luz que não se vê!
Como se a génese da criação fosse de novo ocorrer.
Assim, nesta tarde escura de Inverno, sou banhado na junção das águas distintas, no diálogo dos elementos translúcidos. Completamente trespassado pela lembrança da sua voz!
Mas vim aqui porque senti o chamar. Abrigo? Só no calor do coração. E como o desejo.
Relâmpagos acontecem em mim, e relembro palavras anteriores.
Não somos o que já fomos. A lei da evolução assim o pede. E é de livre vontade que ao pedido dela acedemos.
Embora reconheça o seu início, o sua actual luz já não é a mesma. É outra. Mais vibrante, mais pulsante. E assim deve ser, pois todos os nossos fragmentos completam a vivencia das diferentes eras.
O reconhecimento, que ocorre nos reencontros, é o ímpeto do desenvolvimento. Sem este impulso não haverá futuro. Não concorda? Não quer o reconhecimento ou o futuro?
Como querendo algo, as luzes da natureza despertam-me para outras recordações.
Quanto já nos integramos em tão pouco tempo? É isso assim tão estranho? Será acaso? Ou a manifestação da singularidade em desígnios superiores? Não nos procurámos?
Como tal, não se trata de dependência, mas sim de convivência. De entrega. De querer. E até de amor. Porque não?
Poderá, para além dos receios, haver arrependimento? Mas o seu sentir é genuíno. E …
Desculpe-me não continuar. Estou triste! Há algum problema em afirmá-lo? Nunca tive medo de mostrar o que sentia, porque haveria de começar agora? Seria até irónico que tal acontecesse depois de assumir a prevalência do meu Eu sensorial. Mas a verdade é que o Eu racional começa a manifestar-se. Provavelmente serão defesas. O usar de instrumentos analíticos para suavizar o impacto do que prevejo aproximar-se. Talvez?
Também por isso, e já não me restam dúvidas, estou profundamente triste. Tanto que não consigo impedir cristalinos salgados. Seja! Também estes momentos nos fazem e preenchem!
Contudo, tenho tanto para lhe dizer. E no entanto, nas ondas revoltas do meu mar interior, estas – JAMAIS A ESQUECEREI! Quanta ternura há no seu nome? – subjugam todas as outras.
Agradeço o seu cuidado e carinho, que sinto integralmente, mas não se preocupe. Remeto-me ao silêncio do amor que existe na minha amizade. Sincera! Plena! Mas sem jamais ser imposta.
E não tenha medo ou dúvidas porque sempre escreverei frente ao Mar. São a expressão do meu coração.
Pergunto-me se chegam ao seu? Como gostaria de saber.
Mas talvez não precise de mim? Não importa! Estarei sempre em esperança. Para de novo ouvir a sua voz. Perguntará pelos impulsos?
Um beijo terno, doce alma
in cartas junto ao mar
do blog in-finito azul