JÚLIO DINIS

Júlio Dinis

 

Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Porto, 14 de Novembro de 1839 – Porto, 12 de Setembro de 1871) foi um médico e escritor português.
No período mais brilhante da sua carreira literária usou o pseudónimo de Júlio Dinis.
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O romance «As Pupilas do Senhor Reitor» foi publicado em 1869, tendo sido representado e cinematizado. Um ano antes, tinha sido dado a público «Uma Família Inglesa» e, em 1870, veio a público «Serões da Província».
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No ano do seu falecimento, 1871, publicou-se o romance «Os Fidalgos da Casa Mourisca». Só depois da sua morte se publicaram «Inéditos» e «Esparsos», em dois volumes, assim como as suas «Poesias», dadas à estampa entre 1873 e 1874.
Foi o criador do romance campesino e as suas personagens, tiradas, na sua maioria, de pessoas com quem viveu ou contactou na vida real, estão imbuídas de tanta naturalidade que muitas delas nos são ainda hoje familiares.
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Júlio Dinis viu sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos sadios do amor e da esperança. Quanto à forma, é considerado um escritor de transição entre o romantismo e o realismo.
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Além deste pseudónimo, Júlio Dinis usou também o de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como «Os Novelos da Tia Filomena» e o «Espólio do Senhor Cipriano», publicados em 1862 e 1863, respectivamente. Foi com este pseudónimo que se iniciou nas andanças das letras, tendo, com ele, assinado também pequenas crónicas no Diário do Porto.


fonte: wikipédia
 

UMA RECORDAÇÃO

Frederick Sandys, Perdita

Frederick Sandys, Perdita

 


Lembra-me ver-te inda infante,
Quando nos campos corrias
Em folguedos palpitantes;
Eras bela! e então sorrias.
 

Depois, na infância, eras inda,
Junto ao cadáver rezavas
De tua mãe, com dor infinda;
Eras bela! e então choravas.
 

Num baile vi-te valsando
Da juventude nos dias,
Todos de amor fascinando;
Eras bela! e então sorrias.
 

Dias depois encontrei-te;
Nos céus os olhos fitavas;
Sem me veres contemplei-te;
Eras bela! e então choravas.


Quando ao templo caminhando
Entre flores e alegrias,
De esposa a vida encetando,
Eras bela! e então sorrias.


Quando na campa do esposo
Com teu filho ajoelhavas,
Grupo inocente e saudoso!
Eras bela! e então choravas.
 

Num ataúde deitada
Eu te vi em breves dias,
Mimosa flor desfolhada!
Eras bela! e então sorrias.
 

Sorrindo, na vida entraste,
Sorrindo deixaste a vida;
Alguma flor que encontraste
A espinhos a viste unida.
 

Sim, às vezes tu sorrias.
E os sorrisos o que são?
Quase sempre profecias
Das penas do coração.


1857

in «Poesias», Parte I

TRIGUEIRA

Charles Sillem Lidderdale (1831-1895), Pensierosa

 Charles Sillem Lidderdale, Pensierosa

 

 

Trigueira! que tem? Mais feia
Com essa cor te imaginas?
Feia! tu, que assim fascinas
Com um só olhar dos teus!
Que ciúmes tens da alvura
Desses semelhantes de neve!
Ai, pobre cabeça, leve!
Que te não castigue Deus.

 

Trigueira! se tu soubesses
O que é ser assim trigueira!
Dessa ardilosa maneira
Porque tu o sabes ser;
Não virias lamentar-te,
Toda sentida e chorosa,
Tendo inveja à cor da rosa,
Sem motivos para a ter.

 

Trigueira! Porque és trigueira
É que eu assim te quis tanto.
Daí provém todo o encanto
Em que me traz este amor.
E suspiras e murmuras;
Que mais desejavas inda?
Pois serias tu mais linda,
Se tivesses outra cor?

 

Trigueira! onde mais realça
O brilhar duns olhos pretos,
Sempre húmidos, sempre inquietos,
Do que numa cor assim?
Onde o correr duma lágrima
Mais encantos apresenta?
E um sorriso, um só, nos tenta,
Como me tentou a mim?

 

Trigueira! E choras por isso!
Choras, quando outras te invejam
Essa cor, e em vão forcejam
Por, como tu, fascinar?
Ó louca, nunca mais digas,
Nunca mais, que és desditosa.
Invejar a cor da rosa,
Em ti, é quase pecar.

 

Trigueira! Vamos, esconde-me
Esse choro de criança.
Ai, que falta de confiança!
Que graciosa timidez!
Enxuga os bonitos olhos,
Então, não chores trigueira,
E nunca dessa maneira
Te lamentes outra vez.

 

Abril de 1864.

(Escrita no álbum da Ex.mn Sr." D. M. Veloso e aproveitada para o romance — As Pupilas
do Sr. Reitor — publicada no jornal do Porto em 1866 e em volume em 1867).

 

in «Poesias», Parte II

HISTÓRIA DE UNS BEIJOS

Sir James Shannon, Jebusa In The Springtime Sir James Shannon, Jebusa In The Springtime


 


Ouvia gabar os beijos,
Dizer deles tanto bem,
Que me nasceram desejos
De provar alguns também.

 

Esta fruta não é rara,
Mas nem toda tem valor,
A melhor é muito cara
E a barata é sem sabor.

 

Colhi-os dos mais mimosos,
Provei três; mas, por meu mal,
Ao princípio saborosos,
Amargaram-me afinal.

 

Um colhi eu de uma bela
Que era Rosa, sem ser flor,
Se tinha espinhos como ela,
Dela também tinha a cor.

 

Vi-a a dormir e furtei-lhe
Um beijo, que a acordou,
Eu gostei, porém causei-lhe
Tal susto que desmaiou.

 

Logo que a vi sem sentidos
Fugi sem outro lhe dar,
Pois beijos sem ser pedidos
Não são coisas pra brincar.

 

Porém deste beijo ainda
Pouco tive que dizer,
Pois a tal rosa... era linda
E tornou a reviver.

 

Outra vez, duma morena,
Olhos azuis, cor do céu,
Corpo 'sbelto, mão pequena,
Um beijo me apeteceu.

 

Pedi-lho, e então por bom modos,
Pedi-lho do coração.
Zombou dos meus rogos todos
E respondeu-me: que não.

 

Zombei, como ela zombava
E um beijo, à força lhe dei;
Mas... bem dado ainda não estava
E c'um bofetão o paguei.

 

Custou-me caro o desejo,
Que mui caro ela o vendeu.
Pagar por tal preço um beijo!
Assim não os quero eu.

 

Este mais do que o primeiro,
Me deixou fraca impressão;
Quis provar inda um terceiro,
Para não jurar em vão.

 

Mas não quis fruta roubada,
Que mal com ela me dei;
Uma dama delicada
Ofereceu-ma... eu aceitei.


Ai que boa fruta era!
Estava mesmo a cobiçar.
Passar a vida quisera,
Tal fruta a saborear.

 

Mas no meio da colheita...
Da fruta o dono apareceu;
Zelosos olhos me deita:
Só zelava o que era seu!

 

Vendo o caso mal seguro
Eu logo ali lhe jurei
Restituir até com juro
A fruta que lhe tirei.

 

E acaso não discordasse,
Não me parecia mal
Que a ele os juros pagasse,
E à senhora... o capital,

 

Esta sensata proposta
Em fúrias o arrebatou,
E, por única resposta,
Pra luta se preparou...

 

Oiço ainda gabar os beijos,
Dizer deles muito bem,
Mas findaram-me os desejos,
Já sei o sabor que têm.

 

1859.

 

in «Poesias», Parte I

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