FERNANDO GRADE

Fernando Grade

Fernando Grade, nasceu no Estoril, a 1 de Abril de 1943. É Poeta e Pintor. Foi um dos criadores e teóricos do Desintegracionismo (1964-1965), considerado um dos últimos movimentos da poesia portuguesa.
O seu primeiro livro de poesia, publicado em 1962, chama-se "Sangri".Foi igualmente crítico literário e de televisão, autor de crónicas e editor. Como poeta, publicou, sob o pseudónimo de Abel Sabaoth e em nome próprio, mais de 25 livros individuais, dos quais se destaca O Vinho dos Mortos, para além das inúmeras publicações colectivas em que participou. Foram-lhe atribuidos vários prémios literários.
Como crítico de arte, exerceu no “Jornal de Letras e Artes”, “Século Ilustrado” e “Diário de Noticias”. Assinou balanços anuais de artes plásticas para o jornal “o Século”, onde também, foi cronista. Foi igualmente cronista do jornal “ A Capital”. Realiza exposições individuais desde 1965 em galerias tão distintas como a de S. Francisco (Lisboa), a da S.N.B.A. (Lisboa), no Museu de Angola (Luanda), entre outras e também fez uma retrospectiva de “35 anos de Pintura” na Galeria Municipal de Sintra. Também desde 1965, participa em exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro. Está representado, com a sua “Teoria das Multidões”, em vários Museus e em numerosas colecções particulares nacionais e estrangeiras.

 

Origem: A Poesia dos alendários

e Insónia

Exercício Corporal

Coro, Man Eater Coro, Man Eater
 

 

Fui ao nome de Filomena e roí: ficou Filó,
continuei a avançar queimando letras
e deu Fi. Finalmente,
na tarde caída, assoprei:
-- Fff... -- e assim se perdeu Filomena
na minha vida.

 

in «25 Anos de Poesia - Antologia 1962-1987», 
Museu das Formigas(1980),
Edições Mic, Colecção Salamandra, 1988

Por Odemira

Guillermo Pérez Villalta Guillermo Pérez Villalta

 


      Gostaria que estivesses aqui, em sítio nú, as cabras fogosas, afagadas pelo trevo; queria ver-te fechado numa boca onde o mar não fosse dolorosamente longe e ainda lembrasse os medronhos; gostaria de poder dizer-te em francês arraçado de turco:
      - Bi kéful.
      Cuida-te, a tarde brilha menos e morre, cuida das rosas que trouxeste por becos lunares; vigia o trigo: ao fundo do pó, esconde-se, às vezes, a serpente, o pote de água enfeitiçada.
      Há um pânico com sórdidas asas no meio das noivas.
      Não te esqueças de aprender a viver com a peçonha.

 

Odemira - 14 de Julho de 1987

 

in «25 Anos de Poesia - Antologia 1962-1987», 
Inéditos(1982-1987),
Edições Mic, Colecção Salamandra, 1988

Merenda no bairro do bosque

Té Salvado, Tecnicas II

Té Salvado, Tecnicas II

 

MERENDA-se pão com. Talhadas de
beijos a ferver.
Os carros passam à frente dos prédios
mas nada vejo; estou entretido com o cheiro
casto dos bolos.


A manteiga é de abelhas selvagens
- o chá tinha lábios de mulher.


Ouve-se a chuva em sonata
andaluza que, aos ouvidos de Vanessa, não passa de
um bicho voraz a roer os seios dentro da blusa.


Também de carro célere vou,
giloso de almas e vento;
sinto-me um lobo sádico de confeitos
a trucidá-los ao relento.


Mastigo a luz (devagar) entre colheres parvas:
uma boa refeição é a morte das larvas!


Habitua-te ao sumário chá, os venenos tardam
- não esqueçam que
o cesto dos restos é a melhor arma.


o Bairro do Bosque da tarde
faz de jangada?


in «Também os Beijos têm Osso»,
Edições Mic., S.João do Estoril, 1997

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