TERESA RITA LOPES

Teresa Rita Lopes

 

Teresa Rita Lopes é natural de Faro (n. 1937), e, no início dos anos 60 matriculou-se na Faculdade de Letras de Lisboa. 
Afirma ter dedicado o melhor da sua vida ao estudo da obra de Fernando Pessoa. Mas desse melhor ainda sobrou talento e arte para escrever sete livros de poesia, com destaque para Cicatriz e a sua última obra, saída recentemente, A Fímbria da Fala.
Como dramaturga, Teresa Rita Lopes escreveu cinco volumes de teatro que incluem peças como Rimance da Mal Maridada, Esse Tal Alguém (Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores) ou A Asa e a Casa. O teatro de Teresa Rita Lopes tem uma acentuada vertente poética. A peça Esse Tal Alguém já foi levada à cena em palcos de Portugal e em Paris (numa tradução francesa), Milão (tradução italiana) e Madrid (tradução espanhola).
Publicou numerosos ensaios sobre Fernando Pessoa e tem em preparação a obra monumental Pessoa Todo, em sete volumes.  É também autora de um ensaio sobre a obra de Miguel Torga, Um Deus de Terra.

Publicações: Teatro Reunido II 2007  IMPR.NACIONAL CASA MOEDA; Teatro Reunido I 2007  I.N.- C.M.;  Jogos 2007  Editorial Presença; Estórias do Sul 2006  Edições Colibri; A Asa e a Casa 2003  Campo das Letras; A Nova Descoberta de Timor 2002  I.N.- C.M.; Esse Tal Alguém 2001  Campo das Letras;  Afectos 2000  Editorial Presença; Andando, Andando... 1999  Campo das Letras; Livro de Versos 1997  Editorial Estampa; Cicatriz 1997  Editorial Presença; Miguel Torga - Ofícios a um Deus de Terra 1993  Edições Asa; Pessoa Inédito 1993  Livros Horizonte, Pessoa Por Conhecer I 1991  Editorial Estampa; Pessoa Por Conhecer I I 1991  Editorial Estampa; Os Dedos Os Dias As Palavras 1987  Figueirinhas

 

Primeiro Poema do Amor Difícil

Alcides Beirão, Jarros II, 1999

Alcides Beirão, Jarros II, 1999

 

 

Devolveste-me o sem sentido original
das coisas
Devolveste-me as ruas ao natural
as ruas só por si
as ruas estoirando liberdade por todas as frestas
das pedras
as ruas em que dantes pesavas
me oprimias
as ruas que dantes eram tu
tu apenas tu em todas as esquinas
de lado a lado nas paredes
que me estreitavam até gritar
o teu nome

 

Devolveste-me as ruas livres
descomprometidas
as ruas sem nome sem encontros sem sentido
as ruas que se despem às estrelas
para ninguém
Devolveste-me as árvores
as árvores apenas elas mesmas
no impulso lenhoso dos seus ramos
na sua casca áspera
nas suas casuais flores
para ninguém colher

 

Devolveste-me o tempo fluindo sem margens
sem fronteiras
as madrugadas espantadas de existirem
as madrugadas sem ninguém à espera

 

Devolveste-me as noites fruto fechado sobre si
o céu sozinho

 

As estrelas já não se juntam
para escrever o teu nome
existem
resistem em seu lugar
de olhos muito abertos e brilhantes
sem lágrimas

 

Devolveste-me os Cafés
cheios de gente que afinal
existe

 

Devolveste-me o tampo liso das mesas
sua lúcida certeza
de estar só

 

Devolveste-me as algibeiras sem nada
corajosamente sem nada
só para meter as mãos

 

Devolveste-me o deslizar dos barcos no rio
sua orgulhosa serenidade
Não mais terás que ver
com barcos e comboios chegando
e partindo

 

Todos os comboios e barcos partem
e chegam
sem ti
Todos são iguais
e livres
e inúteis

 

Me encontro
de novo
a sós com as coisas

 

As mãos sem nada nas algibeiras vazias

 

me lanço nas ruas com furor
acamarado com sua brutal nudez
sem disfarce

 

Sabemos que nada temos para trocar
que existimos cada um em seu lugar
sabemos

 

que apenas nos podemos dar
inteiros
sem paixão
distintos

 

Ruas paredes pedras
árvores ruas
luas barcos mastros
te devemos
nossa solidão recuperada


In"Os dedos os dias as palavras",
Porto: Editora Figueirinhas, 1987
 

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