JOSÉ JORGE LETRIA

José Jorge Letria

 

José Jorge Letria nasceu em Cascais em 1951.
Estudou Direito e História e é pós-graduado em Jornalismo Internacional. Com dezenas de livros publicados em diversas áreas, foi distinguido com importantes prémios literários nacionais e internacionais. É um dos mais destacados nomes da literatura infanto-juvenil em Portugal e autor de programas de rádio e televisão. Está traduzido em várias línguas.
Integrou, com José Afonso, Adriano e Manuel Freire, entre outros, o movimento da canção de resistência, tendo sido agraciado em 1997 com a Ordem da Liberdade.
Foi, durante oito anos, vereador da Cultura da Câmara de Cascais. É vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, desempenhando o mesmo cargo na Casa da Imprensa.
É co-autor, com José Fanha, de várias antologias de poesia portuguesa.


Origem: wook  

O amor tudo mata quando morre

Vaz Duarte, Portus Cale Vaz Duarte, Portus Cale

 


Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

 


in «O Fantasma da Obra II»,Quem Com Ferro Ama (1999)
Antologia Poética 1993 - 2001
Lisboa: Hugin editores, 2003

Eu vinha por um pouco de vida

Artur Bual

Artur Bual

 


Eu vinha pela frescura da seda,
pela promessa da água na tua boca
limpa como um alvéolo, como uma fonte.
Eu vinha pela hospitalidade dos teus braços
abertos sobre as dunas, sobre as camas,
sobre a areia macia das paixões furtivas.
Eu vinha pela sede e pela aventura,
com a desabrida idade dos corsários,
dos animais enleantes ziguezagueando
pelo meio dos juncos e das pedras.
Eu vinha pela desordem dos planetas
no meu livro dos mistérios do céu,
no meu mapa dos assombros da alma.
Eu vinha pelo doce veneno de uma língua
semeando no meu corpo os sinais da perdição.
Eu vinha com o sal nos olhos, ardendo
com o lume a queimar-me a fala
e pedia à água para ser chuva
e à chuva, num repente, para ser mar.
Eu vinha por um pouco de vida, só um pouco,
no tumulto da minha existência de papel.

 

in «O Fantasma da Obra II»,Quem Com Ferro Ama (1999)
Antologia Poética 1993 - 2001
Lisboa: Hugin editores, 2003

O ar dentro do grito

Nelson Diaspintura de Nelson Dias 

 

 


Exerce sobre mim todos os teus poderes,
os mais avassaladores e brutais,
os que deixam na carne a marca sem resgate
de uma morte prometida em cada gesto
e dá-me a perceber que
sempre que te toco é, afinal, o fogo
que estou a tocar, como se quisesse
bordar um monograma de lava
no lenço que cala o queixume dos lábios.
Deixa-me dos teus poderes
somente um rumor ou um aroma,
a inexprimível tentação que os faz
serem tão perenes e secretos,
tão sôfregos de entrega e infinito,
e depois derrota-me na arena
dos teus braços como tenazes de vento
sufocando nesta boca
o sopro que aprisiona o ar dentrp do grito.

 

in «O Fantasma da Obra II»,Variantes do Oiro (1998)
Antologia Poética 1993 - 2001
Lisboa: Hugin editores, 2003

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