HELGA MOREIRA

Helga Moreira

 

Helga Moreira (Quadrazais, Guarda, 29 de Abril de 1950) é uma poetisa portuguesa.
Estudou Física e começou a publicar poesia nos anos 80. Depois de uma pausa de 11 anos, volta a publicar com alguma regularidade a partir da segunda metade dos anos 90, propondo uma poesia muito pessoal onde se entrelaçam, com registos do quotidiano, a angústia, a emoção e o desejo.
Publicou o primeiro livro em 1978, em 1996, Os Dias Todos Assim e, em 2002, Desrazões. Colaborou no volume Vozes e Olhares no Feminino (2001). Vive no Porto desde 1968.

Publicações:
1978 Cantos do Silêncio; 1980 Fogo Suspenso; 1983 Quem não vier do sul; 1985 Aromas; 1996 Os Dias Todos Assim; 2001 Um Fio de Noite; 2002 Desrazões; 2003 Tumulto; 2006 Agora que falamos de morrer

 

Origem: Wikipédia

Sempre acontece sempre

António Ferrão, Natureza Morta António Ferrão, Natureza Morta

 

Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e rasteiro o poema


que te envio. A ti primeiro.
Depois aquela parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte


apenas ódio, ou amor?
Já não distingo - ao que se chega!
um verso maior de um menor


alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


in «cem Poemas Portugueses no Feminino»,
sel., org. e intro. de José Fanha/José Jorge Letria
Liboa: Terramar,  2005

Apenas do amor quero tão alto preço

António Ferrão, Banco de Jardim António Ferrão, Banco de Jardim

 

Apenas do amor quero tão alto preço
do mais pouco ou quase nada peço
dias há em que o verso pede rima
como este a querer o que estima


e que não direi;  pois que a vida
se se sente desordenada
ou em ardor que começa e finda
imprevisível em cada coisa e nada


ninguém assim o determina.
Apenas de quando em quando vestígios
por entre duas cidades, dois rios


um a norte, outro a sul que te imagina
ou balouça ou adormenta se o penso
querer dizer aqui o que não posso

 
in «Tumulto»
 & Etc., 2003

Apago cigarro após cigarro

António Ferrão, Town António Ferrão, Town

 

 

Apago cigarro após cigarro,
a chávena ainda quente do café,
e o corpo todo à escuta.
No sono entrevi o teu olhar e
ao visitar-te, excessivamente te beijei.
Entre temor, entre comas, os lugares
que habito são apenas pontos
de esquecimento e fuga.

 

Tenho medo, por vezes, de estar em casa,
outras, de sair, não sei o que me persegue
ou persigo, movo-me apenas
por entre odores, escombros, e aflita
com perigos indefiníveis.
 


in «Os dias todos assim»,
& etc., 1996

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