ALBERTO PIMENTA

Alberto Pimenta

 

Alberto Pimenta (Porto, 26 de Dezembro de 1937) é um escritor, poeta e ensaísta português.
É professor convidado na Universidade Nova de Lisboa.

Destaca-se entre os autores europeus contemporâneos pelo carácter crítico e irreverente da sua obra, bem como pela diversidade dos géneros abordados: poesia, ficção, teatro, linguística, crítica, e até mesmo happenings e performances.
Pimenta foi Leitor de Português em Heidelberg, contratado pelo governo português a partir de 1960 até 1977, data em que regressa a Portugal.
O caráter insurrecto e experimental da sua obra ainda tornam Alberto Pimenta um autor controverso no meio académico português.


Poesia publicada: 1970 - O labirintodonte (Lisboa); 1971 - Os entes e os contraentes (Coimbra); 1973 - Corpos estranhos (Coimbra); 1977 - Ascensão de dez gostos à boca (Coimbra); 1980 - Jogo de pedras (Lisboa: Apia) - Antologia; 1981 - Canto nono (Lisboa); 1982 - Homilíada Joyce (in Joyciana, com Ana Hatherly, E. M. de Melo e Castro e António Aragão, Lisboa: &etc); 1983 - In modo di-verso, (Salerno: Ripostes); 1984 - Adan (Lima: Hueso número); 1984 - Read Read & Mad (Lisboa: &etc); 1986 - Metamorfoses do vídeo (José Ribeiro Editor); 1988 - The Rape (Lisboa: Fenda); 1990 - Obra quase incompleta (Lisboa: Fenda) - Poesia reunida; 1992 - Tomai, isto é o meu porco (Lisboa: Fenda); 1992 - A divina multi(co)média (Lisboa: &etc); 1993 - Santa copla carnal (Lisboa: Fenda); 1996 - A sombra do frio na parede (Porto: Edições Mortas); 1997 - Verdichtungen (Viena: Splitter); 1998 - As moscas de pégaso (Lisboa: &etc); 1998 - Ainda há muito para fazer (Lisboa: &etc); 2000 - Ode pós-moderna (Lisboa: &etc); 2001 - Grande colecção de inverno 2001-2002 (Lisboa: &etc); 2002 - Tijoleira (Lisboa: &etc); 2004 - A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek Editorial) - Antologia; 2005 - Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta (Lisboa: &etc); 2006 - Imitação de Ovídio (Lisboa: &etc); 2007 - Indulgência plenária (Lisboa: &etc); 2007 - Planta rubra (Lisboa: &etc); 2008 - Prodigioso Acanto (Lisboa: &etc)
 

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MIMOS PARA ELISA

CorneilleCorneille

 

 
elisa. elisa tem ancas gordas e beiços carnudos.
elisa gosta de telefonar ao noivo. sentada no so
fá, com o joãozinho à beira, marca o número e diz:
elisa sim meu bem. entretanto o joãozinho mete o
s dedos por baixo da saia de elisa, mete as mãos,
mete os braços. elisa diz: sim meu bem. enquanto
elisa se recosta, joãozinho mete a cabeça debai
xo das saias de elisa, e faz que sim, faz vivamen
te que sim, enquanto elisa diz: sim meu bem. sim.
estes telefonemas com o noivo são tão longos! se
pararam-se há pouco tempo. o noivo suplica: não
chores elisa. não suspires. a separação não será
eterna. elisa acalma-se. joãozinho sai cá para fo
ra. elisa chega-se muito a ele. joãozinho está ag
ora de pé. o noivo fala fala fala. pergunta: elisa
já comeste os bombons todos que te mandei minha
gulosa? elisa não responde. está com a boca cheia
. mesmo na conchinha do ouvido, muito suavemente,
o noivo chama-lhe gulosa. e outros mimos. outros.


in «Santa Copla Carnal»
Lisboa: Fenda, 1993

com cinco letras apenas

Clarence Holbrook CarterClarence Holbrook Carter


 
entre doces
avelaneiras
sob os açafroados
cálices do fruto
um pequeno acanto
disposto
do fundo da alma
a tantos sacrifícios
como os do salmão
da sabedoria
que
engoliu as nove avelãs
mágicas
como dizem os entendidos
e se tornou o aliado
dos adivinhos
a sua vibração
tão aguda e eléctrica
que traz consigo
a mais criativas das inspirações
essa é a planta da sabedoria
e Leucípe
leva-a consigo
quando procurou o pai e a irmã
e os encontrou
segundo as instruções
do oráculo
ou seja
vestida de sacerdote
e assim
foi vista e amada
e daí nasceu a trama
o prodígio
para que mais uma vez
o mundo continuasse
igual a si mesmo
apenas
um pouco mais gasto e tonto
não canto


in «Prodigioso Acanto»
Lisboa:  &etc, 2008

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