MANUEL DE CASTRO

 

Manuel de Castro (Lisboa, 1934 - Lisboa, 1971) é um poeta português.
Ligado ao movimento surrealista, fez parte nas décadas de 50 e 60 do chamado grupo do Café Gelo
Publicou Paralelo W (1958) e A Estrela Rutilante (s/d, 1960). 
Existem alguns textos seus, a maior parte de circunstância, espalhado por revistas e jornais. 
Na Antologia de Herberto Helder «Edoi Lelia Doura» - Vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa estão publicados 11 poemas de Manuel de Castro.

Último Poema Possivelmente de Amor

Rubens Cavalcanti da Silva, Um horizonte

pintura de Rubens Cavalcanti da Silva


 

recorda
como se os dias não fluíssem em dias
e para ti fosse um nítido jogo de músculos
meu braço no teu corpo     anfiteatro
da mais pura derrota rumo às contelações

 

eis-me descoberta
de tudo que se arrisca sem limite
construido pela colaboração de globos de vidro
iluminados e submersos
para o teu nome
um novo mecanismo de linguagem
para o teu corpo
memória     ciclo pefeito
dos meus desejos de pedra e de violência

 

tu
única para quem fui     adeus     o homem sem comédia

 

(in A Estrela Rutilante)

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

Poema para uma Fada do Desencanto

Francis Bacon

Francis Bacon

 


mão marfilínea deslizando vagarosa
num gesto perfurmado e secular
sincrónico com a voz múrmura
dolente cadenciada distante
leve agitar de palmeiras
em ilhas incógnitas e felizes


gesto perfurmado vagaroso
indica oceanos percorre continentes
aldeias furtivas de exóticos países
veios d'água subtis porém apenas
no dúbio mapa de navegação


no tempo das gravuras gentis
no tempo dos luares
dos instrumentos musicais longínquos
um leopardo atravessou a cidade
nocturna
silenciosa
onde estátuas assombradas
reflectiam a luz mortal dos astros


indecisos rumores corrosivos
transportaram para o mundo da fácil realidade
a tristeza
a alegria
e a cidade
atravessada por um ágil leopardo
possui a temperatura móbil da beleza
agora inerme
bela e fria
agora lancinente e desperada
como recordação do que soubemos não ter sido
mas guardamos no coração

 

desejo exacto
a distância as coisas e os dias
lançaram-me de mim
à rigidez impávida dos mortos
meu gesto e teu calor e teu olhar
o sol contém a noite a lua e dia
e não procuro amor que agrado seja
mas sombra no teu corpo intocável
sombra esbatimento e a lembrança
que viverei que sofrerei perfeita
do percorrer monótono do tempo
da invenção oferecida apenas a si própria
do semblante variável do sentido
das pedras que muralha se constroem
minha indiferença meu amor distância
areia e mar dormindo sob a lua


(in Paralelo W)

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

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