JOSÉ SEBAG

 

José Sebag (Açores, 1936 - Açores, 1989) é um poeta português.
Ligado ao movimento surrealista, fez parte nas décadas de 50 e 60 do chamado grupo do Café Gelo.
escreveu para a revista ATLÂNTIDA (Madrugadas de Álcool Puro - conto).
Escreveu o livro de poemas Cão de Setembro numa Co-edição do Instituto Açoriano de Cultura e da Câmara Municipal da Horta - 1991.

Terço final do Poema «Um Corpo de Amor»

Chema Cobo Chema Cobo

 

 

faziam o contrabando dos cigarros medicinais?
iam festejar insultuosamente o aniversário?
da filha mais nova num navio-hospital?
não comiam a horas certas?
metiam-se com as raparigas?


A mais empolgante descoberta da minha adolescência foi perceber que o
vestuário, seja qual for e para o que for, esconde sempre uma corrida
absurdamente veloz para uma morte de lagosta.
No meio de pessoas reais, de passagem no coração da cidade, foi-me
dado assistir à perseguição de que era ao mesmo tempo vítima, causas e
efeito, um homem apocalíptico e embriagado. O sangue saía-lhe pelo
nariz ao tentar, assaz desastradamente, esconder uma moeda, de valor
não calculado, com a qual pretendia construir um castiçal de osso ma-
ciço, e gritava:


Abastecimento em pleno voo! Conheça a fórmula!


EXCLUI A CIDADE - pede o teu fulgurante corpo de amor -
ELA NÃO É UMA RIMA
É UM DECOR PARA O CINEMA NACIONAL
NÃO COLABORA     CHEIRA MAL


Ah! Minha querida! vês como falha o meticuloso garfifaca
do teu apreciado espírito de observação?


Tudo em resumo concorre para que a cidade seja o nosso
corpo de amor!
a que categorias promover este universo helio-
-excêntrico?


de qualquer modo estará sempre acima
o que nós vemos das escadas é apenas uma antologia
de muros


demoro-me e seis fadas me aguardam para um festim
na queimadura do teu rosto


trago-te um camarote de luxo ladrilhado pelo
relâmpago gélido da esperança específica


condenados a comer até corar
olhamos em frente não vemos o mar
mas sim uma morte que ainda não é a nossa e que
por isso desde já se anuncia
quando eu disser que em ti


corpo de amor
amante cidade sem um corpo


Alguns minutos e compassos merecem o idílio


áleas que não negociámos
estalarão na memória tarde de mais


circunscritos, vigiados e loucos
amámo-nos num atelier
onde o ar investe como um alçapão


e para terminar condignamente
esta lápide tão simples e flagrante;


morto quando dava caça aos biombos da alegria

 

AQUI JAZ UM CORPO DE AMOR! (os restos de)

 

 

(in Surrealismo Abjeccionismo)

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

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