Chema Cobo
faziam o contrabando dos cigarros medicinais?
iam festejar insultuosamente o aniversário?
da filha mais nova num navio-hospital?
não comiam a horas certas?
metiam-se com as raparigas?
A mais empolgante descoberta da minha adolescência foi perceber que o
vestuário, seja qual for e para o que for, esconde sempre uma corrida
absurdamente veloz para uma morte de lagosta.
No meio de pessoas reais, de passagem no coração da cidade, foi-me
dado assistir à perseguição de que era ao mesmo tempo vítima, causas e
efeito, um homem apocalíptico e embriagado. O sangue saía-lhe pelo
nariz ao tentar, assaz desastradamente, esconder uma moeda, de valor
não calculado, com a qual pretendia construir um castiçal de osso ma-
ciço, e gritava:
Abastecimento em pleno voo! Conheça a fórmula!
EXCLUI A CIDADE - pede o teu fulgurante corpo de amor -
ELA NÃO É UMA RIMA
É UM DECOR PARA O CINEMA NACIONAL
NÃO COLABORA CHEIRA MAL
Ah! Minha querida! vês como falha o meticuloso garfifaca
do teu apreciado espírito de observação?
Tudo em resumo concorre para que a cidade seja o nosso
corpo de amor!
a que categorias promover este universo helio-
-excêntrico?
de qualquer modo estará sempre acima
o que nós vemos das escadas é apenas uma antologia
de muros
demoro-me e seis fadas me aguardam para um festim
na queimadura do teu rosto
trago-te um camarote de luxo ladrilhado pelo
relâmpago gélido da esperança específica
condenados a comer até corar
olhamos em frente não vemos o mar
mas sim uma morte que ainda não é a nossa e que
por isso desde já se anuncia
quando eu disser que em ti
corpo de amor
amante cidade sem um corpo
Alguns minutos e compassos merecem o idílio
áleas que não negociámos
estalarão na memória tarde de mais
circunscritos, vigiados e loucos
amámo-nos num atelier
onde o ar investe como um alçapão
e para terminar condignamente
esta lápide tão simples e flagrante;
morto quando dava caça aos biombos da alegria
AQUI JAZ UM CORPO DE AMOR! (os restos de)
(in Surrealismo Abjeccionismo)
«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973