PEDRO OOM

Pedro Oom

 

Pedro dos Santos Oom do Vale (Santarém, 24 de Junho de 1926 - 1974) foi um escritor surrealista português, que fez parte do Grupo Surrealista Dissidente, juntamente com nomes como Mário Cesariny e Alexandre O'Neill.
Inicialmente ligado ao neo-realismo, acabou por ingressar na corrente surrealista. Foi o mentor da teoria do abjeccionismo, ao redigir, em 1949, o Manifesto Abjeccionista. Até 1974, ano da sua morte, os seus textos encontravam-se dispersos por jornais e revistas. Foram postumamente reunidos em Actuação Escrita (1980). A obra ficcional de Pedro Oom resume-se a um conjunto de pequenos textos englobados em Histórias para Crianças (Emancipadas), que não são mais que pequenos relatos com um tom humorístico e irónico.


Fontes: wikipédia e Insónia
 

Autoficção da Cidade Amorosa

Picasso, The Dryad, 1908

Picasso, The Dryad, 1908

 

Construí-a
irreal
transparente
lúcida      esguia      um mar
          interior na barriga
      correias de transmissão nos cabelos
Os anéis de Saturno são a força centrí-
      fuga centrípeta que lhe agita os braços
      no espasmo amoroso


Halley o metropolitano


75 milhões de anos-luz atravessam-na da cabeça
à cauda


deito-me com ela todas as noites na via láctea
 

 

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

O Sonhador Espacializado

Picasso, Figures by the Sea, (The Kiss), 1931

Picasso, Figures by the Sea, (The Kiss), 1931

 

      Este perfume, hálito benigno, incêndio espectacular de crateras extintas, este perfume é a estrada dos teus cabelos, das tuas superstições, das tuas violências absurdas, mulher-noite, mulher de espinhos com a tua floresta de água salpicada de estrelas, estranha, opaca, a todos os títulos única, a todos os títulos notável!
      A tua voz desliza nos confins da geleira que é o teu corpo entre nuvens e ondas furiosas, recordação vingativa, bússola doida condenando o tempo, este tempo, o nosso! Eu acredito no inacreditável. Haverá um tempo para os combóios de espuma e para os aviões de lama. E um outro tempo para as tuas mãos desenrolando os caminhos, para o reflexo da tua cabeleira imitando as marés, para a máquina giratória do teu sexo livre, para a fotografia do teu rosto em chamas.
      Não há razão para queimar a esperança. O teu leito ainda está húmido de orvalho e os teus olhos ainda se negam aos Deuses. A realidade da tua nuca Evereste de gelos eternos, a carreira sem fim dos teus braços arco-íris circundando o meu corpo, a cordelheira da tua pele macia onde as minhas mãos se apoiam, são ainda e sempre o único motor para o looping no espaço, a única clareira onde o sonho floresce, a única estrada que só conduz  si mesma.
      Eu digo-te que não há razão para queimar a esperança, esta esperança que tinge os teus lábios e que vai connosco até ao fim dos abismos, êxtase delirante onde não existe o Presente e onde o Futuro é um espasmo violento, uma chama súbita em que eu e tu nos fundimos.
      Não há razão para queimar a esperança, esta rubra mistura de sonhos e lava, perfeitamente conjugada como um círculo em repouso. Tenho-te sempre nos meus braços, no meu ser, e por isso quando  me debruço nos debruçamos sobre  precipício olvidamos a nossa condiçãos de indivíduos para sermos o fluxo e o refluxo da História.
      Já não somos o que se classificaria de um homem e de uma mulher, mas sim uma multidão de sombras povoada de nuvens, a fusão de dois ácidos, a resolução de um problema.
      A minha carne é o teu nevoeiro perpétuo.

 

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

«-Índice de Poetas Apaixonados